Para o servidor público do Rio Grande do Norte, o espírito natalino de 2025 veio com sabor de ceia requentada — e só para o ano que vem.
Com o anúncio de que o 13º salário integral só verá a cor do dia em 9 de janeiro de 2026, a gestão Fátima Bezerra (PT) reafirma sua tradição: o Estado é um excelente arrecadador, mas um pagador de "mãos leves" quando o assunto é o direito de quem segura a máquina pública.
Contudo, para não dizerem que não há dinheiro em caixa, o Diário Oficial trouxe uma novidade refrescante — ao menos para um grupo seleto. A Portaria nº 217/2025 da Fundase/RN regulamentou o "Horizontes Potiguares". O nome é poético, mas a prática é pragmática: R$ 500,00 mensais depositados na conta de jovens que acabaram de deixar as unidades de internação por atos infracionais.
A lógica é de um sarcasmo involuntário que beira a crueldade:
- O Professor/Policial: Trabalha 12 meses, cumpre a lei, paga impostos e recebe o aviso de que o seu "salário extra" ficou para o próximo calendário fiscal.
- O Egresso: Cumpre a medida socioeducativa e, ao sair, encontra um governo pronto para estender o tapete vermelho financeiro com uma bolsa que muitos estagiários de graduação sequer sonham em receber.
O governo argumenta que o foco é a "ressocialização" e a redução da reincidência. Nobre. Mas em um estado quebrado, onde a segurança pública trabalha no limite e hospitais operam sob intervenção de liminares, premiar o erro antes de honrar o mérito é, no mínimo, uma bofetada técnica na cara do contribuinte.
Enquanto sindicatos de saúde e segurança tentam, via judicial, o que deveria ser automático — o recebimento do salário dentro do mês e do ano —, o governo se mostra célere em criar novas rubricas de despesas assistencialistas. O "Horizontes Potiguares" pode até ter base no Sinase, mas sua implementação em meio ao calote natalino dos servidores é um erro político de leitura social.
É o "Estado Babá" em sua versão mais perversa: ignora a geladeira vazia de quem educa e patrulha para garantir o "projeto de vida" de quem, até ontem, desafiava a paz pública. O Rio Grande do Norte vive um experimento social curioso. Por aqui, a responsabilidade fiscal é uma sugestão, e a pontualidade salarial é uma loteria.
Se você é servidor, a orientação é paciência e austeridade. Se você é um jovem egresso do sistema infrator, parabéns: seu "horizonte" está garantido com o dinheiro que faltou no Natal do vizinho.
Resta saber se, em janeiro, o governo pagará o 13º ou se inventará uma nova bolsa para quem se comportar bem no Réveillon — exceto, claro, para quem trabalha.
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